Espaço para o outro

|Victor Castro
Espaço para o outro

A vida moderna é sobre estar ocupado. se não estamos fazendo algo "útil", sentimos uma inquietação que nos corrói por dentro, como se estivéssemos sempre perdendo alguma coisa. o medo de ficar sem nada para fazer é real. ter tempo livre, falar que não temos nada agendado, se tornou um pecado moderno. o descanso virou sinônimo de ociosidade, e, na correria, nos esquecemos de parar.

O que é ouvir de verdade se não um reflexo da nossa incapacidade de parar e prestar atenção? antes de ir mais fundo, vale a pena fazer uma diferenciação entre "ouvir" e "escutar". ouvir é o básico, o que todo mundo faz – a gente percebe o som, mas não faz a menor ideia do que está acontecendo. escutar, por outro lado, é algo mais raro, quase um luxo. é prestar atenção, sem distrações, um ato de total entrega. Não é só o que entra pelos ouvidos, mas o que fazemos com o que entra.

há um tempo atrás, precisei fazer um exame, e meu celular estava descarregado. O que parecia simples – esperar ser chamado pelo doutor – se transformou numa sensação de inquietação. quando não temos essas distrações, nos sentimos vazios, como se estivéssemos à deriva em um mar de inquietação. isso me fez pensar sobre como a falta de distração revela um caos interior que, de tão profundo, nem sabemos mais como lidar.

neste mundo acelerado, escutar se revela como um presente, um ato raro de graça. quando damos nossa atenção a alguém, não é só um gesto educado. estamos oferecendo algo de valor, algo que realmente falta: nossa presença genuína. no final, escutar é um ato de hospitalidade. ao abrir o espaço para o outro, estamos dizendo: “eu vejo você, você importa para mim.” não é só uma questão de estar ali, é fazer isso de maneira inteira, sem dividir a atenção com a próxima notificação no celular.

talvez sejamos conhecidos, não pelas coisas que fazemos, mas pela maneira como prestamos atenção. e, em um mundo onde ninguém consegue mais se concentrar, escutar de verdade se tornou um tesouro escondido. hoje, o problema não é o tempo, mas a sobrecarga de distrações que nos impede de realmente estar com os outros.

escutar é um reflexo de hospitalidade. quando damos espaço para o outro, criamos uma mesa invisível onde ele pode se sentir aceito, onde a palavra pode ser ouvida e valorizada. assim como oferecemos a comida, deveríamos oferecer nossa atenção. pois, muitas vezes, é quando escutamos que permitimos que o outro se reconheça, que ele descubra seu valor e se sinta verdadeiramente visto.

Henri Nouwen diz que escutar é mais do que esperar a nossa vez de falar. escutar é abrir mão da necessidade de mostrar o que sabemos ou do impulso de corrigir o outro. é, na verdade, fazer silêncio dentro de si mesmo para ouvir o outro com o coração, não só com os ouvidos. e, talvez, esse seja o maior desafio: nos desarmarmos, parar de olhar para nós mesmos e, finalmente, abrir espaço para o outro. Rubem Alves também diz algo parecido com Henri Nouwen:

A gente não aguenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor...
Sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer.
Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração...
E precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor. Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade.

Rubem Alves, em seu maravilhoso texto intitulado “Escutatória”.

Estamos constantemente “seguindo” pessoas, mas vale a pena refletir: o que significa, de fato, ser um “seguidor”? alguém que observa apenas um fragmento da sua vida, sem jamais sentar à sua mesa, dividir uma refeição ou olhar nos seus olhos? nosso tempo online é um turbilhão de informações rápidas, de trocas que não duram mais de 30 segundos. postamos, curtimos e compartilhamos, mas nada disso tem o peso de uma conversa verdadeira, de um momento compartilhado. e, ao contrário do que parece, essa constante conexão tem gerado mais solidão. a medida que mais pessoas seguem mais pessoas, mais nos afastamos da forma genuína de relacionamento. e o pior, quando não gostamos de algo, está fácil tirar o outro de nossa vista, basta apertar "unfollow", como se isso resolvesse algo. isso tem tornado nossas relações mais frágeis. Zygmunt Bauman descreve isso como o “amor líquido”.

no fim, nos sentimos mais isolados do que nunca. em vez de estarmos à mesa, rodeados por outros, estamos presos em uma bolha, protegidos por nossas próprias preferências e medos. é como se estivessemos sentados em mesas de um lugar só, encarando um espelho. e, no fundo, ninguém mais se atreve a se sentar com os diferentes. eles são descartados com um simples “não me interesso mais”; um clique, e pronto, eles desaparecem. mas nós temos algo diferente a oferecer. enquanto a modernidade segue se distanciando, nós não temos medo do algoritmo. seguimos a Cristo, que sempre ofereceu uma cadeira a mais na mesa para quem precisasse de um lugar.

talvez o convite seja mais simples do que parece. se, no mundo digital, estamos perdendo a arte de escutar de verdade, quem sabe seja hora de voltar às mesas e, no lugar de “seguir” alguém à distância, convidarmos as pessoas a se sentar, comer, conversar e, principalmente, escutar.


por favor, dedique mais alguns minutos à leitura, clique no link abaixo e leia o texto Escutatória de Rubem Alves